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ARMINDO TREVISAN PROPÕE UMA LEITURA MODERNA DA BÍBLIA

O que é a Bíblia? Este livro tão antigo ainda é relevante para as pessoas hoje? Essas questões guiaram a palestra do teólogo, doutor em Filosofia, poeta e escritor Armindo Trevisan, na última quinta-feira, na Feira do Livro. Trevisan iniciou afirmando que a Bíblia é um dos livros mais geniais já produzidos pela humanidade, e que sendo assim é extremamente relevante para todos os leitores, de todas as épocas. Entretanto, segundo ele, a maioria das pessoas lêem a Bíblia para encontrar a Deus e ela pode ser lida para encontrar o homem, pois está repleta da experiência humana.


'A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca'


Trevisan revelou que a Bíblia é sua única leitura diária mas ele confessa que suas ideias sobre ela não são de todo maduras, tamanha profundidade, complexidade, riqueza e relevância do livro. 'Livro não, 'Biblioteca'. Bíblia é uma palavra de origem grega, que significa “os livros”. Para o teólogo, essa é uma das informações mais importantes que as pessoas precisam ter em relação a Bíblia. “Ela é uma reunião de livros, escritos por diferentes autores, em diferentes épocas da História”. Sem esse conhecimento, as pessoas começam a lê-la e acabam desistindo por falta de instrução e de informação”. Além da Bíblia ser a reunião de vários livros, nem mesmo cada livro foi escrito de uma só vez. Vários deles surgiram lentamente. “Entre o Salmo mais antigo e o mais recente, por exemplo, há um espaço de 800 anos” explicou Trevisan, e completou: “As pessoas não têm ideia por exemplo que a divisão por capítulos e versículos é recente, data de 1226 d.C.”.

Mas como surgiu essa reunião de tantos livros? Trevisan explicou que a Bíblia não 'caiu do céu'. Ela é a coletânea de informações da vivência humana, que posteriormente seria registrada em livros. De acordo com o teólogo, quem a escreveu não tinha consciência de estar produzindo um livro sagrado na hora de sua atividade literária. As pessoas estavam registrando fatos. “Alguns escritores parecem até mesmo 'chatos', mas isso se deve ao fato de nem todos serem escritores experientes, um dos autores, Pedro, por exemplo era pescador” explicou. Por essa razão não existe um único estilo literário Bíblico, mas diversos. Há livros históricos, proféticos e muitos livros poéticos. “Oséias e Isaías são grandes poetas”, elogiou Trevisan. “A Bíblia não foi ditada por Deus, ela foi inspirada por ele. Não é como o Alcorão, que segundo os Muçulmanos, foi ditado por um anjo. O Alcorão sim é revelado” comparou Trevisan.

Além da redação dos livros, outro fato importante para a compreensão da Bíblia é saber que houve ainda a seleção, um processo chamado cânon, que consiste na classificação de certos livros como sagrados e outros não. Essa seleção foi feita, no Antigo Testamento, pela comunidade Judaica em 393 d.C. E, a 'seleção' do Novo Testamento, pela comunidade cristã em 1546, d.C. - época em que o Brasil foi descoberto - através do Consílio de Trento.

O escritor falou também a respeito dos textos Deuterocanônicos: São livros que a Bíblia Católica traz e que não são encontrados na Bíblia protestante, por exemplo. São livros do Antigo Testamento, que foram acrescentados depois do cânon ter sido concluído. Livros considerados piedosos, mas não canônicos. O Antigo Testamento Católico possui 46 livros, enquanto o Antigo Testamento Protestante possui 39 livros. “Pode até haver outros livros que foram inspirados por Deus, mas eles não foram selecionados para a lista que a comunidade elaborou para sua fé”, considerou Trevisan.

Além do Cânon, outro fator importante a ser considerado é a tradução. Trevisan explicou que o Antigo Testamento foi escrito em Hebraico, que é uma língua muito diferente do Grego, com a qual foi escrito o Novo Testamento. “Além disso, os textos falados por Jesus foram ditos em aramaico, e daí para o Grego, já houve uma tradução do redator”, esclarece. Houve também a Septuaginta (palavra latina que significa setenta), primeira versão da Bíblia hebraica traduzida em etapas entre o terceiro e o primeiro século a.C. em Alexandria. A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta, pois setenta e dois rabinos trabalharam nela e, segundo a lenda, teriam completado a tradução em setenta e dois dias.


Para ler a Bíblia


O escritor deu dicas para a leitura da Bíblia: “não deve ser lida com pressa, mas sim com muita seriedade e profundidade. É preciso conhecimento histórico e científico”. Armindo alertou ainda que não se pode mais interpretar a Bíblia como fazíamos a cinquenta anos atrás, porque hoje temos muito mais conhecimento de história, de arqueologia entre outras ciências.

Trevisan foi questionado pelo público da palestra a respeito da Teoria de Darwin, “ela contradiz o texto Bíblico?”. “Em absoluto” respondeu ele. “Gênesis é um poema que não tem intenção de dar lição de Biologia. Deus criou as coisas porém não explicou como” esclareceu. Criticou ainda os cientistas e escritores que não tem conhecimento e menosprezam a Bíblia. “Para criticar algo é preciso estudar muito o objeto da crítica. Não se pode aceitar críticas ignorantes. É fundamental saber dizer 'eu não sei', ser humilde. Quando não se tem propriedade para falar de determinado assunto.” E, usou as palavras de Lutero: “somos simples mendigos espirituais, diante do texto Bíblico”. É um texto que tem a ver com nossa atual vida precária e eventual vida futura. A Bíblia leva a autobiografia da humanidade, é lida por todos os povos que desejam saber quem são e que revela a identidade daquEle que vislumbram como Criador. “É uma fagulha de luz para entender o nosso destino” concluiu.