O ilustre casal de escritores Heloisa
Seixas e Ruy Castro, palestraram na noite desta sexta-feira,
integrando a programação da 25ª Feira do Livro. Castro
se tornou pioneiro, no Brasil, na criação de biografias, desde
princípios da década de 1990, abrindo um campo vasto nesta vertente
jornalística, e também na produção de reportagens prolongadas que
se transformaram em um gênero conhecido como livro-reportagem.
Enquanto
biógrafo, combinou seu talento como narrador sofisticado ao seu dom
para desvendar a psique de personagens famosos, produzindo obras como
Chega
de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova,
de 1990, no qual narra as aventuras e desventuras das figuras que
marcaram este movimento musical; O
Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues,
de 1992, sobre a vida deste grande dramaturgo e cronista brasileiro;
Saudades
do Século XX,
de 1994; Estrela
Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha,
de 1995, que aborda a trajetória deste craque do futebol; Ela
é carioca,
de 1999, sobre o bairro de Ipanema; Carmen:
uma biografia,
que enfoca a vida e a carreira da grande cantora e atriz
luso-brasileira, livro vencedor do prêmio Jabuti, em 2006.
Romancista,
contista e cronista, Heloisa Seixas tem nove livros de ficção
publicados por diversas editoras (quatro romances, três livros de
contos, um infantil e um voltado para o público jovem). Três de
seus livros – Pente
de Vênus
(contos),
A
Porta
(romance)
e Pérolas
Absolutas
(romance)
– foram finalistas do Prêmio Jabuti.
Heloisa Seixas começou
desculpando-se: “Só agora conseguimos vir a Caxias! Mas isso se
deve a vida louca que temos levado. Nunca antes houve tantas Feiras
do Livro e eventos relacionados à literatura no Brasil. E isso é
bom” comemorou. Segundo ela o Mercado do Livro está se expandindo.
O INÍCIO DA CARREIRA
A escritora contou que a palavra
sempre foi sua matéria prima. Ela se considerava uma jornalista de
segunda classe, porque sempre trabalhou nos 'bastidores', na edição,
na tradução. “Nunca apurei fatos, mas burilei a palavra alheia”
contou ela. Heloisa chegou a trabalhar como assessora de imprensa da
ONU no Rio de Janeiro. A escritora contou que seu interesse por
histórias não se deu diretamente através do livros, mas através
da influência da avó, que lhe contava histórias. “Dediquei a ela
meu primeiro livro, Pente de Vênus, lançado em 1995”,
revelou. Para Heloisa, transformar-se em escritora não foi nada
sutil. “Foi uma coisa enlouquecedora. Fui tomada por um surto e
comecei a escrever compulsivamente. Acabei assombrada pelas palavras
de ficção que eu mesma criava” contou. “Sempre fui apaixonada
pela palavra, mas como leitora. Para mim, começar a escrever foi
como se eu pulasse para o 'outro lado'. Hoje sou uma leitora e
escritora apaixonada. Para Heloisa, os autores de ficção já nascem
com livros dentro de si, em algum momento da vida esses livros serão
escritos.
Ruy Castro contou que durante toda a
sua vida sobreviveu da 'palavra' e nunca pensou em fazer nada
diferente. Ele aprendeu a ler aos 5 anos de idade com sua mãe, que
lia para ele A Vida como ela é, de Nelson Rodrigues. Cresceu
cercado de jornais e revistas, porque seus pais não descartavam
nada, 'não se jogava a palavra fora em minha casa'. Castro
virou um leitor voraz. Aos 7 anos decidiu que seria jornalista. Aos
19 começou sua carreira e desde então foi repórter, redator,
colunista, cronista, correspondente, editor... “não teve função
dentro do meio jornalístico que eu não tenha exercido” contou.
Castro participou de publicações
importantes como O Pasquim, Fair Play, Playboy, Manchete e foi editor
da Reader's Digest. “Você pode exercer diferentes funções, mas
ser você mesmo se você domina as técnicas que o jornalismo
envolve” afirmou. Ruy contou que, com a prática no jornalismo,
aprendeu como se dirigir ao leitor e 'macetes' para entrevistar.
“Aprendi, por exemplo, a nunca fazer mais que uma pergunta de uma
vez” contou. “O convívio diário com a informação foi tão
importante para mim que definiu um estilo de trabalho para o resto da
vida”, disse.
Castro começou a se interessar por
livros nos anos 80. A ideia de escrever coisas que não caberiam num
veículo de imprensa começou a 'mexer' com ele. “Ter que prender o
leitor por 300, 400 páginas, é um desafio. Você não pode permitir
que ele te demita na página 30. Tem que ser interessante, divertido,
charmoso”. E esse desafio ele dominou muito bem, tornando-se um dos
maiores biógrafos brasileiros.
SOBRE O REGISTRO
Para Ruy Castro, a palavra impressa é
o grande aval para qualquer fato. “Um fato acontece porque
escreveram sobre ele” explica. Segundo o biógrafo, não se faz um
livro de reconstituição histórica só de Jornalismo. Para ele, uma
biografia exige conhecimento prévio do contexto. “Não poderia,
por exemplo, biografar um matemático, porque matei todas as aulas de
matemática da minha vida” confidenciou. O escritor recusou
escrever sobre a Semana de Arte Moderna, de 1922, por não ter
conhecimento suficiente sobre São Paulo e, menos ainda, sobre o
assunto. Castro afirmou que alguém não faz um biografia sendo
apenas um grande apurador de fatos. Ele não acredita em biógrafo
que fica em casa lendo. “Sou a favor da vagabundagem. Precisa-se
viver. Correr da polícia, correr de marido traído, tem que ter tido
vida para entender a vida do biografado. Não acredito em biógrafo
de gabinete” contou.
Já sobre literatura, Heloisa disse
não existir criação sem verdade interior. Para ela, ao contrário
da opinião de Castro sobre o biógrafo, uma pessoa pode ter passado
a vida inteira trancada dentro de casa e ainda escrever um bom livro.
“Jane Austin nunca saiu de casa, nunca se casou, nunca aconteceu
absolutamente nada na vida dela. E ela foi uma grande escritora. Ela
precisou buscar dentro dela o que não teve fora”, exemplificou.
'A PAIXÃO PELA PALAVRA NOS
UNIU'
Heloisa contou que quando se
conheceram estavam virando escritores e não sabiam. “Foram as
poesias de Ruy que fizeram me interessar por ele” confidenciou.
Heloisa foi uma das primeiras pessoas a receber um exemplar de Chega
de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova.
“Queria impressioná-la”, contou Castro.